O PRÍNCIPE CAPOEIRA



          
O ritmo da loucura toma conta de cada face endurecida pela cidade grande, o meu querido Rio de Janeiro que tanto amo tornou-se um amante cruel marcando meu coração com cicatrizes de luta e dor. Olhares angustiados, agressivos, pessoas se acotovelando e me pergunto para que? Afinal por que estamos lutando uns contra os outros?

             Depois de 18 horas extremamente cansativas chego em Cumuruxatiba ao final do dia, olho do alto do pequeno morro a visão mais linda que tive, largo as malas na casa e me sento, embaixo a pequena cidade com casas simples e bonitas, à frente o mar todo prateado com pequenos barcos descansando do dia de trabalho, de repente de uma pequena nuvem sobe aos poucos uma enorme bola de fogo alaranjada... As lágrimas rolam sob minha face e sorrio agradecendo. Cumuruxatiba com essa lua cheia e essa natureza exuberante me dá as boas vindas aquecendo meu coração, a solidão da cidade grande vai indo embora aos poucos e Cumuru parece colocar os braços em volta de meus ombros tal qual uma mãe coloca seu filho no colo, sinto-me acalentada, acarinhada. A cidade me abraça.

             No primeiro dia, sentada assistindo à roda de capoeira tive uma visão assim como um “anjo caído do céu” ali estava um homem no meio da roda com gestos rápidos, braços fortes, corpo de príncipe, seu rosto era deslumbrante, luminoso, irradiando uma luz que só os deuses têm, um sorriso contagiante mostrando sua alegria na capoeira, indicando o seu mundo... Seus olhos de um brilho assim como raios que caem em tempestades... Eram magnéticos... Esse olhar tão forte a todos convidava para entrar na roda e fazer parte dessa viagem deslumbrante do mundo da capoeira. Sua voz soava como uma melodia doce nos meus ouvidos. Chamei-o de meu Príncipe Capoeira.

             O que poderia ser isso minha mente perguntou ao meu coração? Uma visão? Ou uma Paixão? Ou a Paixão? Diante de mim estava o homem mais bonito que meus olhos já viram, uma beleza física perfeita de um deus irradiando uma alma especial. Era como se seu lindo corpo irradiasse algo vindo de dentro que só essas pessoas especiais carregam dentro de si. O príncipe capoeira tomou conta de todo meu ser, de minha alma, de meu corpo e desmanchou como por encanto a dor que envolvia meu coração. De novo, Cumuruxatiba me presenteava com seu povo.

             Tudo em Cumuru falava dele e tudo nele falava de Cumuru, seu modo de andar calmo, sua natureza física perfeita lembrava a natureza perfeita de Cumuru, suas praias límpidas, cristalinas, quando jogava capoeira parecia um pássaro levantando vôo, livre... Assim como a brisa suave que constantemente batia em Cumuru. O olhar amigo lembrava o calor humano da cidade, a simplicidade lembrava a beleza do ser humano, a calma o sossego... O sorriso, que belo sorriso tem meu Príncipe, esse sorriso que Cumuruxatiba nos dá como que nos convidando sempre a ficar.

             Quem era esse que de tão lindo, de tão luminoso, de tão envolvente, de tão irradiante era como um arco-íris que liga, faz a ligação entre os humanos e os deuses? Traz para a terra os segredos dos deuses... É o mensageiro entre o divino e o humano?  Mais uma vez o príncipe capoeira fala dessa pequena cidade onde parecemos entrar no paraíso imaginado pelos homens e prometido pelos deuses.

             Assim como Cumuruxatiba me deu de presente, ao chegar, um abraço de consolo com sua lua cheia acima do mar prateado, também me presenteou com esse príncipe ao sair, esse príncipe que em tudo fala de sua cidade e que, com certeza ficará marcado para sempre em minha memória. O príncipe capoeira será minha lembrança eterna dessa cidade que conquistou meu coração.

            Que olhar tão forte e triste era esse? Que dança era aquela que dava asas aos movimentos do seu corpo? Que liberdade e medo eram aqueles que soltavam e ao mesmo tempo prendiam seus gestos? Que lindo coração tinha meu príncipe? Quais os mistérios de Cumuru? Para sempre terei essa visão, a visão do mais belo homem integrado com a perfeita harmonia de seu lugar, com a perfeição que só a natureza tem, os dois como um só ser... A cidade e o homem como em um movimento único livre... O movimento de simplesmente deixar ser...

 

Rio de Janeiro, 14 de fevereiro, 2006.

Teresa Granato